Tantas vezes vi esta receita ser cozinhada, tantas vezes já a fiz, que a tenho de cor:
"O peso dos ovos, o mesmo peso de açúcar, metade do peso de farinha, uma colher de fermento e casca de limão. Batem-se as gemas com o açúcar e 2 cascas de limão. Batem-se as claras em castelo. Junta-se a mistura de gemas com as claras e, no final, envolve-se
a farinha. Tiram-se as cascas de limão e vai ao forno em forma untada com manteiga e polvilhada com farinha.".
Simples assim. E ajustável ao tamanho da forma. O cheirinho de sempre. Pão de ló fofinho, mesmo bom quando está morno. Tirar as cascas de limão e comer a massa crua, rapar a taça em que se bateu o bolo, ou as varetas ma máquina. Massa na ponta do nariz. E o
cheirinho de sempre.
Faz parte de mim, faz parte de nós. A Avó Antónia fazia tantas vezes este bolo, que fazia as delícias de todos. Trazia-o quando vinha, com o Avô Manuel, visitar-nos a Lisboa. Lembro-me de os esperar em Santa Apolónia e de os ver sair do comboio com as malas
e o saco onde, entre outras coisas, vinha o pão de ló, os queques, a torta de chocolate, tudo muito arrumadinho. Anos mais tarde, tantas vezes passei em Santa Apolónia e pensei nas vezes que lá os fomos buscar. Que saudades enormes.
Com o tempo, a receita foi modernizada e adaptada: abre-se o bolo ao meio, ensopa-se de sumo de laranja e cobre-se de doce de ovos; ou abre-se o bolo ao meio, recheia-se e depois cobre-se de morangos e chantilly. Fica muito bom na mesma. Mas prefiro a versão
original.
Na verdade, é sempre delicioso, este bolo. Esta conjugação de ingredientes é simples mas infalível. Agora, o que o torna mesmo bom é o amor que a Avó colocava na sua preparação. Que passou para os filhos e para os netos. E deixou bem vivo nas minhas memórias
de infância.
É o melhor de nós, a nossa gastronomia. Mas também a Família, quando carinhosa. E a infância, quando feliz.
Este fim-de-semana, vai cheirar a bolo na minha cozinha.
M.